Sonhos de infância e realidades da vida adulta

Quando criança, eu sempre ficava imaginando o que eu seria quando crescesse. Basicamente, eu sofria da loucura que os candidatos a universitários sofrem quando precisam escolher uma carreira, uma profissão para o resto de suas vidas, mas ainda estão indecisos.

A diferença era que eu sofria disso uns dez anos antes da época normal de uma pessoa sofrer com isso. Nesse sentido, eu fui muito precoce. Somente nesse sentido, visto que, para muitas outras coisas, ainda sou um bebê aprendendo a descobrir o mundo. Talvez seja por essa precocidade em relação a esse assunto que eu bloqueei inconscientemente esse pensamento e consegui sobreviver até hoje sem tomar uma decisão real sobre essa questão.

Sim, senhoras e senhoras, eu, por mais escandoloso que isso possa parecer a vocês, ainda não tenho formação de nível superior. Felizmente, consegui viver relativamente bem até hoje dessa forma. Veja bem, não estou incentivando ninguém a fazer o mesmo, o que funciona para mim pode não funcionar para você e vice-versa.

Inclusive, é importante notar, a falta de uma formação de nível superior me fez perder muitas oportunidades profissionais muito interessantes. Não tenho como afirmar que seria uma melhor pessoa ou teria uma vida melhor (em todos os sentidos, não somente financeiramente)  caso tivesse ido em frente e cursado uma faculdade, mas o fato é que ainda não passo fome. Ainda.

Desde que comecei a trabalhar com tecnologia, eu basicamente deixei a vida ir me levando. Nunca tive muita preocupação em planejar uma carreira e definir metas profissionais. Comecei como fuçador, como muitos de vocês provavelmente também começaram, e continuei. Simples assim.

A vida seguiu seu curso e o universo agiu a favor. Nunca cheguei a me preocupar em me matar de estudar, me formar, escolher uma carreira, ter ascensão profissional e toda a parafernália envolvida. Quando criança, eu não tinha uma resposta pronta e exata para quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse.

Talvez porque, na época (na saudosa década de 80, com Juba e Lula comendo solto), minha profissão simplesmente ainda não existisse. Eu tinha um lampejo de idéia de querer “lidar com computadores“, mas ainda não sabia o que isso realmente envolveria e o que eu realmente faria com eles (os computadores) alguns anos mais tarde.

Podem me chamar de velho (e eu sou, 3.0 inclusive, chupa modinha 2.0), mas eu sempre tive em minha mente de criança a idéia de uma profissão como sendo um trabalho braçal. Não entrava em minha cabeça uma pessoa poder trabalhar com a mente e ainda poder chamar isso de profissão.

Não me perguntem o porque disso. Talvez Freud explique, mas eu acredito que seja mais devido a minhas aulas (inúteis, reconheço, e não me orgulho disso) de não-me-lembro-mais-o-nome-do-curso (acredito que seja Estudos Sociais), nas quais o meu professor sempre fazia questão de frisar a importância da frase “O trabalho dignifica o homem“.

Trabalho é uma palavra que eu associo diretamente, sem escala alguma, a esforço físico, o bom e velho trabalho braçal de antigamente. O que eu e muitas outras pessoas fazemos atualmente, nessa sociedade da informação, eu prefiro associar a uma ocupação, a qual, vejam vocês, acaba por também ser minha forma de ganhar meu Toddy (sim, porque não sou muito chegado em pão).

Ainda hoje, sinto uma grande estranheza quando ouço pessoas falando sobre “nossos profissionais”, se referindo a equipe da qual faço parte. Eu ainda tenho um preconceito inconsciente (do qual venho tentando me livrar, mas do qual meu cérebro ainda teima relembrar sempre que possível) em relação a qualquer forma de trabalho não braçal.

Eu cheguei a exercer trabalhos braçais antes de entrar nessa loucura que é a àrea de tecnologia, e nessa época não achava que o que eu fazia não era um trabalho. Ao contrário, aquilo sim eu entendia como um trabalho. Manual, do tipo que você soa e fica fisicamente cansado de fazer.

Passei anos do início de minha vida na àrea de tecnologia tentando me adaptar, educando meu cérebro a pensar que o que eu estava fazendo era um trabalho, que eu tinha uma profissão e que aquilo era um trabalho digno como qualquer outro. Só menos fisicamente cansativo e financeiramente mais compensador.

Melhorei bastante e hoje em dia já consigo aceitar muito disso como natural nos outros, mas ainda tenho um resquício de preconceito contra eu mesmo, teimando em achar que eu não sou um profissional no sentido mais literal da palavra. Talvez eu consiga curar isso cursando uma faculdade e obtendo um diploma, para convencer minha mente de que, agora sim, oficialmente, eu sou um profissional.

Ou, talvez, isso se cure somente com terapia. O fato é que, ainda hoje, sinto que não passei, em minha vida pós-infância/quase-adulta, pela experiência de escolher uma profissão da forma tradicional e, provavelmente por isso, ainda não tenha digerido o fato de que, para alguns, sua ocupação atual é algo tão natural que todo esse processo maluco histérico pelo qual passei precocemente ainda na infância simplesmente não é necessário.

Dada o enorme universo de novas profissões criadas nos últimos anos e a quantidade ainda maior delas que são criadas diariamente, é impossível que ninguém no mundo tenha pensando da mesma forma. Por isso esse post, para tentar compartilhar com outras pessoas essas doideiras que eu teima em carregar em meus pensamentos. E você, tem disso também ?

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4 comentários sobre “Sonhos de infância e realidades da vida adulta

  1. A minha história me levou a um ponto parecido: trabalho com tecnologia há 10 anos, embora sem formação universitária também. Penso que o fardo de ter de se ‘escolher’ uma profissão de forma consciente por volta dos 17,18 anos como se faz normalmente é interessante e esquisito.. Num certo sentido, nossa vida está sempre sendo reinventada por nós mesmos, e tal visão de uma escolha tão imutável e definidora é assustadora (até rimou!)

  2. Não trabalho na área de computadores, mas tenho muito interesse (sou um desses bisbilhoteiros da vida…). Tanto que mesmo formado em Letras passo o dia em frente ao pc aprendendo a lidar com Linux e coisas afins (usando em tempo integral há duas semanas), também aprendi html e já criai vários site para mim mesmo, apenas pelo prazer de construí-los…

    Também passo por isso que você disse de achar que trabalho braçal é que é trabalho realmente. Talvez pelo fato de ter vivido a vida toda em uma fazenda e não ter sequer ligado um pc até uns 5 anos atrás. O que sei realmente é que seu texto me faz sentir bem, por saber que não sou único no mundo!

  3. @Walter Cruz

    Olá Walter,

    Talvez, inconscientemente, nós que trabalhamos nessa área sejamos apaixonados por mudanças semi-constantes e, por isso mesmo, tenhamos escolhido nos ocupar com algo que nos obriga a sempre estar aprendendo coisas novas 🙂

  4. @Rob Ville

    Olá Rob,

    Assim como você, acredito que existam muitos que não necessariamente trabalham na área, mas que sejam apaixonados por ela e tenham como hobby a “computaria”.

    É bom saber que eu não sou o único no mundo que pensa dessa forma. Na verdade, acredito que existam muitos outros que também pensem dessa forma, nós simplesmente ainda não os encontramos.

    Mas, agora, ao menos, sabemos que pelo menos dois existem (você e eu) e, no mínimo, saber desse fato, como você citou, nos faz nos sentirmos bem 🙂

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