A importância da comunidade

Os acontecimentos relacionados ao acordo entre Microsoft e Novell que circularam nos últimos tempos geraram uma grande enxurrada de comentários contra e a favor e, em alguns casos mais extremos, manifestações de boicotes contra a Novell.

Não acho que seja correto assumir que a Novell é 100% vilã nessa história toda. Tudo bem que agora ela possa estar tomando um posicionamento que uma grande parcela da comunidade não aprova, mas devemos sempre lembrar que ela ao menos contribuiu bastante com inúmeros projetos de softwares livres/abertos no passado recente e isso deve ser respeitado.

O que a Novell parece estar fazendo agora, porém, é algo perigoso. O problema é que a Novell, mesmo tendo incorporado empresas nascidas 100% ligadas ao software livre/aberto, parece ainda não ter conseguido entender algo crucial para quem pretende atuar como um participante do ecosistema livre : respeitar a comunidade é essencial.

E, por comunidade, não estou dizendo aqui os clientes Novell que utilizam softwares livres/abertos, mas sim as pessoas, empresas, grupos de pessoas e todo o restante que realmente fazem com que essa roda toda continue girando, produzindo tecnologia e soluções de qualidade diariamente, em todos os cantos do mundo.

É crucial que quem quer que pretenda jogar esse jogo entenda que, com software livre/aberto, nenhuma solução que forneçamos aos nossos clientes será composta 100% de tecnologia que criamos nós mesmos, sem a ajuda de ninguém. Por mais bem acabada que sua “casca”, sua “cola”, sua “interface” ou suas melhorias sejam, sempre haverá código de inúmeras outras pessoas/grupos sendo utilizado em algum nível em sua solução baseada em software livre/aberto.

A comunidade é composta de talentos brilhantes, que compartilham suas idéias e código livremente, mas que exigem no mínimo respeito. Assumir que somente seus clientes merecem algum tipo de “vantagem” e que a comunidade não é merecedora da mesma “vantagem” e, ainda por cima, assumir isso publicamente (talvez não diretamente, mas por entrelinhas), é um exemplo perfeito de um tiro no pé.

Digo isso porque, nesse caso, você está desrespeitando seu fornecedor principal, a fonte de onde grande parte da tecnologia que você utiliza em suas soluções é retirada. Dinheiro é bom e todo mundo gosta, mas aceitá-lo para se posicionar contra os ideais do grupo ao qual você publicamente faz parecer fazer parte é, no mínimo, muito ingênuo : ganha-se a curto prazo, mas de médio a longo prazo você mata seu próprio negócio.

Vários membros da comunidade já se posicionaram em relação ao assunto e tornaram públicas suas opiniões, mas o que me fez escrever este post foi algo que acabei de ler e que me serviu de inspiração. Pode parecer evidente para nós, que já convivemos em comunidade há tanto tempo, mas ainda parece ser algo difícil de se compreender para a maioria das empresas, mesmo aquelas com experiência no assunto (vide Novell) : o que importa é a comunidade.

Tenha boas relações com a comunidade e você terá sucesso, desrespeite-a e você terá o que não pediu, algumas vezes da pior forma possível e em uma velocidade extremamente rápida. Eu não sou ninguém para dar conselhos e, devido a isso, dificilmente alguém me ouviria, mas acho importante que quem quer que queira participar da comunidade entenda como as regras funcionam.

Por isso, achei que seria uma boa contribuição ajudar traduzindo o post mais recente do Greg Kroah Hartman, importante kernel hacker há tempos profundamente envolvido com a comunidade, contribuíndo em várias frentes com código e tentando deixar claro para as empresas como são as regras de convivência em uma comunidade formada ao redor de projetos de softwares livres/abertos.

Senhores e senhoras, com vocês, Greg Kroah Hartman :

Todo o ecosistema Linux é bastante estranho para pessoas que estão acostumadas a maneira “tradicional” que as empresas funcionam. Aqui está um guia suscinto para iniciantes para aqueles que precisam de um lembrete.

Em uma empresa de tecnologia “tradicional”, você tem executivos tomando decisões estratégicas profundas, os gerentes seguindo essas decisões e dizendo aos engenheiros o que desenvolver (sim, existe marketing e vendas também, mas parece esse ensaio, vamos simplesmente ignorá-los por enquanto). Normalmente os executivos, os gerentes e os engenheiros estão focados em criar a “futura melhor solução” em sua área, e estão competindo diretamente com outras empresas de sua mesma área.

E isso funciona bem, todos estão acostumados a esse formato e grandes porções da economia mundial dependem deste modelo.

E então há o Linux.

E, por Linux, eu vou focar no kernel aqui, mas você pode extrapolar a idéia para qualquer outro componente do ecosistema de uma distribuição Linux também, pois todos funcionam praticamente da mesma maneira, de uma forma ou outra.

No Linux, as regras são diferentes, bem como a maneira que todo o ecosistema funciona.

Para o Linux, o “produto” é criado por engenheiros trabalhando na comunidade. Os membros da comunidade se reunem e trabalham para um projeto em comum, tornando-o o melhor que podem fazer. Esses engenheiros são um grupo bem grande, originados de um grande número de empresas e com experiências distintas.

Empresas entenderam que o Linux é algo bom para se usar e tentaram entender como ganhar dinheiro oferecendo-o como um sistema suportado semi-estável.

Essas empresas possuem executivos, gerentes e engenheiros, da mesma forma que uma empresa tradicional também os possui. Mas aqui é onde as coisas começam a funcionar de forma diferente. Esses executivos ainda tomam profundas decisões estratégicas, os gerentes trabalham para levar essas decisões em frente e dizem aos engenheiros o que desenvolver, mas os engenheiros tem que trabalhar com a comunidade para atingir seus objetivos. Esses engenheiros dependem da comunidade para serem capazes de criar algo que a empresa toda possa fornecer aos clientes e com o que possa ganhar dinheiro.

Devido a essa dependência da comunidade, as empresas tendem a serem divididas em duas grandes categorias (sim, existem mais categorias, mas, por enquanto, vamos simplificar as coisas) :

  • empresas que ignoram a comunidade : Essas empresas meramente empacota seja lá o que for que a comunidade crie e vende isso. Assim, elas não possuem muita influência no produto e se tornam jogadores menores no mercado.
  • empresas que abraçam a comunidade : Essas empresas contratam membros da comunidade ou permitem que seus funcionários entrem na comunidade, uma vez que elas entendem que essa é a única forma de possuem de guiar o Linux para direções que elas acreditam que ele deva seguir. Devido a isso, a empresa é capaz de oferecer soluções a seus clientes um pouco antes que as empresas na primeira categoria as oferecem e elas podem suportar seus clientes de forma muito melhor, uma vez que os membros da comunidade são capazes de auxiliá-los diretamente.

Empresas que se encaixam na primeira categoria podem agir da forma que desejarem, seus executivos podem fazer acordos com quem desejarem, elas podem tentar ser concorrentes diretos de outras empresas e ninguém na comunidade irá realmente se importar, uma vez que essas empresas são jogadores pequenos e não muito importantes.

Porém, empresas na segunda categoria devem se atentar a comunidade. Seus executivos não podem sair por aí fazendo coisas que não estejam nos melhores interesses da comunidade, seus gerentes não podem tentar competir diretamente com seus competidores e seus engenheiros não podem ignorar os desejos e opiniões da comunidade.

Caso alguma dessas coisas aconteça, a empresa logo será ignorada pela comunidade, forçada a implementar todas as grandes coisas que os executivos e os gerentes sonharam por si só e lentamente acabar se tornando uma empresa membro da primeira categoria, relegada a ser um jogador pequeno, uma vez que a comunidade e as empresas que são membros reais da comunidade as ultrapassam e seguem seu próprio caminho.

A história já está cheia de remanescentes de empresas que originalmente iniciaram abraçando a comunidade, mas então cometeram o erro de pensar, por algum razão, que eram empresas de tecnologia “tradicionais”.

Será interessante ver o quão bem as empresas atuais no ecosistema Linux realmente entendem o quão diferente seu ambiente de negócio realmente é.

Note que todas as idéias que você possa ter sobre qual empresa da mundo real se encaixa em qual categoria, ou porque este ensaio foi escrito em primeiro lugar é tudo algo que está em sua própria mente …

Perceba que, no início de seu ensaio, Greg diz : “Aqui está um guia suscinto para iniciantes para aqueles que precisam de um lembrete.” Eu creio que sua intenção foi tentar relembrar seu empregador que existem regras a serem respeitadas e quais são os riscos de não respeitá-las.

O último parágrafo é bastante irônico, já que o próprio autor do ensaio, além de ter as credencias já expostas anteriormente, também é um membro da comunidade sendo pago pela Novell para desenvolver projetos de software livre/aberto em comunidade, principalmente o kernel Linux.

Você tem alguma alguma dúvida de qual empresa faz parte da segunda categoria e porque o ensaio de Greg foi escrito ?

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7 comentários sobre “A importância da comunidade

  1. “Eu não sou ninguém para dar conselhos e, devido a isso, dificilmente alguém me ouviria, mas acho importante que quem quer que queira participar da comunidade entenda como as regras funcionam.” – andrelop’s blog

    Você influência comunidade que vive, não digo somente as de software livre mas das pessoas que estão em sua volta e lêem o que você escreve, escuta o que você pensa.

    Ótimo artigo, pena eu ser mais revolucionário nesses pontos, quem sabe seja só a minha idade hauhauh

    Abraços …

  2. Olá Demoncyber,

    Claro que qualquer um pode influenciar (positivamente ou negativamente) outro indivíduo, mas o ponto que eu quis frisar é que o que eu falo não seria tão influenciador quanto o que o Greg fala.

    Sabemos que um dos principais (e, para aqueles não pagos para trabalhar com isso, o principal) motivos pelos quais os desenvolvedores de software livre continuam desenvolvendo e liberando seu código é conseguir algum tipo de reconhecimento e respeito.

    Seria muita pretensão minha querer ter mais reconhecimento e respeito do que o Greg. Exatamente por isso que citei que, em relação a esse assunto, eu não sou ninguém. Logicamente, todos darão mais importância ao o que ele fala do que o que eu falo, e eu concordo com isso pois sei reconhecer e respeitar o trabalho dele.

    Em relação a você ser mais revolucionário, você se importaria de discorrer um pouco mais sobre o assunto ? Fiquei interessado.

  3. Bom o quisito de ser revolucionário, e que acho que o sistema deveria ser imposto contra a pirataria existente em nosso país. Acho que deveriam policias ou talvez outra autoridade comećar a fiscalizar todos sem excessão assim como o IBGE tem a pretensão de ir a todas as casas que o mesmo seja feito para verificar as lincensas e piratarias usufriadas pelos seus usuários. Sei que minha pretensão é meio alta nesse ponto, mas acho totalmente injusto o uso de algo que é pago de forma ilegal, então que use uma alternativa gratuita se ela existir ou pelo menos nacional. As pessoas acham tão normal piratiar um software, ripar um dvd mas não refletem o que isto faz com elas, o brasileiro é esperto é malandro o que é bom para ele é o que importa, não acho esse o caminho. Mas quem sou eu para descordar, se a mãe de uma crianća incentiva ela quando é pequena a usar o que é pirata, e diz que somente o que é bonito vem de fora ou das empresas que produzem merceradoria estrangeira aqui instaladas, se não é mãe é caixa do mal ou o novo pane at circuris da era atual, que fica ali sem excessão na casa de quase todos na sala influenciando as pessoas a não pensarem.

    E sobre esse ponto e que quero chegar, falar sobre revolućão no modo de pensar, não ligo tanto para o capitalismo e como ele anda seguindo seu rumo, acho até interessante a Microsft ajudar um antigo inimigo seu. Bom não importa, desde que as pessoas entendam que assim como em um jogo de volei todos devem jogar pelo seu time e participar, nós devemos investir em produtos de nosso país ou produtos onde os quais vemos que não estão beneficiando um seleto grupo mas sim a nossa comunidade o nosso time. Me dizem que produtos brasileiros não tem qualidade descordo, acho que quem mata o nosso país e a forma de pensar de malandro do brasileiro. Me dizem que não fazem o que o que é correto porque o vizinho do lado não faz, mas acho que se não existirem iniciativas e tentativas sempre viveremos neste país pirata onde grande empresas de outros países dominam e onde sempre seremos dominados.

    Bom não quero seu voto hauhau pq do texto, mas se você pensar um pouco e tentar mudar nesse ponto acho que terei feito pelo menos mais um pouco pela minha comunidade.

    A nota não vejo informática só como uma máquina um computador um meio, vejo informática como uma comunidade um meio de passar uma filosofia, um modo de pensar.

    “Nunca o homem esteve tão perto do conhecimento e tão longe do que é a verdade e como agir corretamente.”

  4. Caro André…

    Um dia me mostraram que um excelente sinônimo para educar é “cutucar”! Isso mesmo, a ideia do Paulo Freire é a de que “Ninguém educa ninguém”… o aprendizado é um ato coletivo e multidirecional. O que um bom educador faz é ampliar o espectro de possibilidades, desafiar, instigar, confrontar, etc.

    Vou lhe dizer, você é um excelente educador… sua contribuição para a comunidade de Software Livre é maior que você imagina. Dizem que as boas ideias tem a força do grupo que as acolhe. Tenha certeza que existe uma grande comunidade absorvendo as ideias que você humildemente semeia por aí!

    Eu estava esperando um momento para lhe responder publicamente seu último e-mail… acho que achei o momento oportuno.

    Abraços fraternos e solidários,
    Fábio Telles

  5. Olá telles,

    Antes de mais nada, peço desculpas pela resposta extremamente atrasada. Há tempos tenho tentando encontrar tempo livre para responder a alguns comentários, incluíndo os seus, e não tenho tido êxito, infelizmente. Vamos ver se consigo agora enquanto aguardo um download finalizar 🙂

    Bem, eu fico lisonjeado em saber que existem pessoas lendo o que eu escrevo e ainda por cima saber que minhas idéias e textos podem estar de alguma forma influenciando positivamente algumas pessoas.

    Eu gostaria que, assim com você fez, outras pessoas que, por ventura, tenham lido este ou qualquer outro post meu e tenham gostado, se manifestassem nos comentários. Receber comentários (positivos ou negativos) é a única forma que tenho de saber se o que escrevo é útil de alguma forma.

    Obrigado pel resposta pública. Tenha certeza que ela foi muito apreciada.

  6. Sem duvidas, atitudes “tiro no pé” .. espero que eles mudem a forma de trabalhar o mercado e que não se tornem referencia para o mesmo.

    veremos nos proximos capitulos .. agora Unbreakable Linux com apenas 9000 downloads é uma bela resposta a eles : ]

    Parabens andré pelos teus textos tão bem desenhados e inteligentes, pena que escreve muito e fala pouco. mas realmente está de parabens ainda.

    []s geekianos

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